Preciosidades

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Ressocialização e arte, por Antonio Veronese

Do Portal Luis Nassif

Blog de dalva de oliveira

Ressocialização e arte (ou 600 meninos) - Antonio Veronese

"Imaginem uma sala pequena e suarenta, quase escura, com 46 meninos dentro.
25 são negros, 12 mulatos e 9 brancos.
16 estão com piolho, 4 com escabiose, 11 com conjuntivite, um tem o corpo coberto por furúnculos.
16 tem cicatrizes massivas resultantes de agressões.
12 já foram baleados, quatro feridos à faca, três têm marcas de queimaduras.
26 são analfabetos totais, 12 só sabem escrever o próprio nome.
28 são órfãos de pai, 8 órfãos de mãe, 6 de pai e mãe.
9 deles foram violentados.
39 já fumaram maconha.
41 já cheiraram cola.
22 revelam uma grande "fissura" por chá de cogumelo.
7 têm tiques nervosos entre os quais a gagueira.
Um tem hipermetropia e catarata degenerativa,
um está com pneumonia,
um com suspeita de tuberculose,
um tem a pele da perna direita fragilizada devido a queimaduras de terceiro grau.
23 estão com algum tipo de doença venérea,

6 estão jurados de morte pelo tráfico,
11 têm desavenças sérias na própria comunidade ou no presídio,
um tem dezoito marcas de queimaduras a cigarro,
um tem um pedaço de vidro encravado na face,
e um perdeu totalmente a articulação do cotovelo esquerdo após ser amarrado a um automóvel e arrastado.
Dos quarenta e seis, 12 estarão mortos antes de completar 25 anos.
A sala, dentro de um presídio de menores, tem uma mistura de cheiros produzidos pelos desarranjos intestinais e a copiosa sudorese. Esse grupo de infelizes não incomoda mais; está retirado das ruas, não causa mais risco a ninguém. Esse grupo nasceu mal-nascido, cresceu mal-nutrido, desde pequeno apanhou como gente grande, ainda impúbere fez sexo como gente grande...
Esse grupo de desgraçados logo descobriu que uma ponta de cola de sapateiro, dez vezes mais barata do que um cachorro quente, tira a fome e ajuda a dormir...
Esse grupo de meninos, órfãos absolutos do Estado, até que tentou arrumar um emprego, mas acabou sucumbindo ao canto de sereia dos traficantes,com suas ofertas de dinheiro fácil e emoções sem limites.
Esse grupo, de trágico passado e sombrio futuro, está reunido nesta pequena sala, na modorra da tarde, para ouvir Mozart e pintar a óleo e, surpreendentemente, o trabalho que resulta desta tosca oficina encanta a todos, e revela, apesar de tudo, uma remanescente alma de criança nesses meninos de cara feia e história triste.
Pelo simples exercício de pintar e ouvir música, mais de 50% deles tem suas penas reduzidas ou comutadas, sendo considerados re-adaptados ao convívio social. Provocados por atividades estético-culturais emocionam-se e recuperam rapidamente a auto-estima e a dignidade. A violência intra-grupo cai a zero e a sua reincidência no crime é três vezes menor.
Somente no Rio de Janeiro mais de 600 meninos são assassinados a cada ano.
Outros 5.500 sofrem lesões corporais dolosas, e 60% de todas as crianças cariocas,independentemente de classe social ou geografia urbana, sofrem de doenças psicossomáticas relacionadas ao medo.
Acabo de apresentar à Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas fotografias de 160 dessas crianças que trabalharam comigo, as quais têm em comum os corpos marcados por cicatrizes decorrentes da violência urbana, doméstica e policial.
Os números censitários da violência contra menores no Rio nos permitem afirmar que há um genocídio de jovens em curso no Brasil! E, disso, precisamos tratar prioritariamente! Não advogo impunidade, pois sei que muitos destes infratores têm tal septicemia moral que têm que ser afastados do convívio social. Mas o que especialmente me incomoda é a constatação de que a imensa maioria deles poderia ser salva, mas , apesar disso, está simplesmente sendo jogada no lixo." 
------------------------------
Sobre o autor:

"Ao recolher esses meninos infratores em seu atelier Veronese os transforma simplesmente em meninos. Quando os ensina a pintar, transforma-os em artistas". Antonio Callado

Antonio Veronese, artista brasileiro de renome internacional, tem obra exposta em numerosos museus, coleções públicas e privadas no Brasil e no exterior. Pela denúncia da violência contra menores no Rio de Janeiro, Veronese foi convidado-palestrante à Comissão de Direitos Humanos da ONU- em Genebra, e recebeu, da Suprema Corte de Justiça brasileira, a menção Honnoris Causa" Risoleta Córdula-Assustos Culturais-Embaixada brasileira em Paris.

Antonio Veronese manteve durante anos, na década de 90, um projeto de oficinas de arte nos centros de recuperação de jovens infratores, utilizando a pintura como forma de reabilitação psico-pedagógica dos adolescentes entre 12 e 18 anos. Alguns dos trabalhos produzidos pelo jovens foram expostos em Genebra (Suíça), no Salão Negro do Congresso Nacional, em Brasília, e na Universidade de San Francisco, nos Estados Unidos.

Radicado na França desde 2004, ele se sente - ao menos artisticamente - em casa. A troca de endereço, portanto, foi útil, embora tenha sido motivada por ameaças de morte, recebidas depois que Veronese denunciou casos de violência contra menores no Brasil.

O engajamento em favor de crianças e adolescentes carentes é uma das características de suas obras - além de uma espécie de obsessão por rostos. Antes de deixar o Rio - que o paulista de Brotas adotara por anos -, deu aulas de arte para menores infratores no Instituto João Luiz Alves, na Ilha do Governador. Em 1998, chegou a cobrar da então primeira-dama, Ruth Cardoso, medidas para tirar das ruas crianças abandonadas. Sua obra Just Kids (Apenas Crianças) é usada pela Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) para simbolizar os dez anos do Estatuto da Infância e da Adolescência (ECA), enquanto Save the Children (Salvem as Crianças) é símbolo dos 50 anos da ONU. Apesar de distante do Brasil, Veronese, de 55 anos, se diz ligado a essa temática e ao país. Mas se sente esquecido pela crítica brasileira, que, segundo ele, lhe dedica "a mais absoluta e total indiferença".

terça-feira, 10 de abril de 2012

Karel Appel (1921-2006)

Phanton with Mask  (1952 - an oil over canvas - 1,16 X 0,89m - from a private colection)

Christiaan Karel Appel, conhecido como Karel Appel (Amsterdam, 25 de Abril de 1921Zurique, 3 de Maio de 2006) foi um pintor, designer, artista gráfico, escritor e escultor neerlandês e co-fundador do grupo CoBrA, em 1948.

Estudou na Rijksakademie van Bee hldende Kunsten (1940-1943), onde se tornou amigo de Guillaume Corneille, seu futuro companheiro no CoBrA. Appel viveu em Paris, a partir do início da década de 1950; em Nova Iorque, na década seguinte, na Itália e na Suíça, onde faleceu.

Appel pintou também retratos de músicos de jazz e executou vários trabalhos públicos, incluindo um mural na sede da UNESCO em Paris. Seus primeiros trabalhos lembram a pintura do realista neerlandês George Hendrik Breitner (1857- 1923), porém, já à época da Segunda Guerra Mundial, volta-se para o Expressionismo alemão e principalmente para o trabalho de van Gogh.

Há um ponto de inflexão no estilo de Appel, por volta de 1945, quando encontra inspiração na Escola de Paris, particularmente em Matisse, Jean Dubuffet e Picasso; essa influência, que deverá persistir até 1948, pode ser observada, por exemplo, em uma série de esculturas de gesso dessa época.

A partir de 1947, seu colorido universo pessoal será constituído de seres simples, infantis e animais amistosos, que povoam suas pinturas, desenhos, esculturas de madeira pintada. Seu senso de humor chega ao ápice em grotescas montagens, relevos em madeira e pinturas como Hip, Hip, Hooray (1949) (Galeria Tate de Londres). (Fonte: Wikipédia, a enciclopédia livre.)

Karel Appel

sábado, 24 de março de 2012

Meus artistas preferidos


Meus artistas preferidos from Poqaatsi on Vimeo.


Aldemir Martins, Alexander Calder, Amedeo Modigliani, Antonio Veronese, Arcangelo Ianelli, Carlos Scliar, Edvard Munch, Fernando Botero, Frans Krajcberg, Frida Kahlo, Hector Carybé, Henri Matisse, Iberê Camargo, Jackson Pollock, Joan Miró, Juarez Machado, Pablo Picasso, Paul Klee, Paul Cezanne, Piet Mondrian, Salvador Dalí, Wassily Kandinsky

sexta-feira, 23 de março de 2012

Em busca de uma velhice saudável.

Dave Brubeck (músico) - 90 anos
Por Ramiro R. Batista.

Você já se imaginou “velho”, ou idoso, como queira? O que você irá fazer quando estiver bem velhinho? Hoje é muito comum vermos pessoas idosas numa rotina que se resume a dormir cedo, acordar cedo, ir à missa aos domingos, ou se possível todos os dias, ou assistir missa na tevê (uma atrás da outra), e, quando os idosos ouvem música, ah!, “não, mais baixinho, ‘tá muito alta!”, numa suposta “boa” tranqüilidade. 

No entanto, isso é tudo o que não se deve fazer numa velhice saudável. O cérebro precisa de estímulo contínuo, desafios, e, quanto maior for este desafio, melhor. Dentre as várias atividades intelectuais que devemos manter está a de ouvir música. Mas é a nossa relação com a música que faz a diferença. A música tem um importante papel na “prevenção” de doenças comuns na velhice, como a senilidade, a demência; e, principalmente, o Mal de Alzheimer. O Mal de Alzheimer ainda é uma doença incurável, mas podemos retardá-lo e, por que não?, evitá-lo. 

Com relação à música, como terapia preventiva, nós devemos ouvir mais músicas, de todos o tipo, cantá-las, memorizar a letra, e procurar lembrar das músicas antigas da infância ou juventude, forçando o cérebro a recordar. As lembranças de um determinado assunto estão espalhadas pelo cérebro em determinados feixes de neurônios. Ao lembrarmos, forçamos estes vários feixes a se conectar, criando novas ligações sinápticas.

E o melhor, se possível, é aprender a tocar um instrumento musical. Aprender a ler uma partitura é como aprender um novo idioma. Um desafio e tanto para o cérebro. Se uma pessoa é capaz, todas são. Apenas uma em cada 100 pessoas é superdotada em música e nasce com o dom, ou tem o ouvido absoluto. E muitas pesquisas mostraram que o homem comum é capaz de se tornar um especialista em música só com “disciplina” e treino, muito treino. Qualquer pessoa pode se tornar um profissional de música, com 10 mil horas de estudo, ou seja, 3 horas por dia durante 10 anos. Difícil? Sim, mas não impossível.

Fonte de inspiração “A música no seu cérebro”, de Daniel Levitin.

Ramiro R. Batista é músico amador, toca clarinete e saxofone.

B.B. King (87 anos)

Oscar Niemeyer (arquiteto - 104 anos)

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O fantástico Murilo Rubião

O primeiro livro de contos que ilustrei foi Pirotécnico Zacarias, de Murilo Rubião, em 1974. O livro inaugurava a coleção Nosso Tempo, na editora dirigida por Jiro Takahashi. A publicação do livro deu súbita fama a Murilo e, a mim, a oportunidade de ilustrar todos os demais livros da coleção. Não sei o número exato de livros, foram muitos. 
Murilo Rubião (1916-1991)
Não cito os autores, todos afamados, para não correr o risco de esquecer alguns. De Murilo Rubião conhecia poucas coisas. Sabia sobre seu primeiro livro, O Ex-Mágico, publicado em 1947,  que teve pouco sucesso. Também sabia que era jornalista e que constava em seu currículo a chefia de gabinete do governador Juscelino Kubitschek. Ao receber seus originais, descobri que ficaram engavetados por 15 anos. Por isso, Murilo não teve o reconhecimento merecido como precursor da literatura fantástica, que tanto sucesso fazia em livros de autores latino-americanos.
Ainda hoje, quando vejo os desenhos que fiz para os contos de Rubião, sinto uma enorme gratidão pela escolha do meu nome para ilustrar suas fantásticas histórias. Elas me permitiram criar imagens e ambientes estranhamente absurdos, que até então eu não havia experimentado. Não havia naqueles textos limites para a imaginação. No lançamento do livro, em Belo Horizonte, os editores levaram meu trabalho para uma galeria de arte onde ocorreria o evento. Antes fui conhecer o autor.
Sua figura franzina vestida com terno e gravata não combinava com sua arte absurdamente surreal. Cortês e tímido, me cumprimentou e agradeceu pelos desenhos. Eu o abracei e agradeci pela oportunidade de também enlouquecer um pouco mais após ter lido e ilustrado suas histórias. Ele sorriu um riso silencioso que me lembrou o riso dos velhos palhaços.
Emocionado e caminhando a seu lado, tive a certeza de que era ele próprio o meu personagem favorito, e não todos os outros para os quais inventei estranhas alegorias em preto, branco e cinza. Mais à noite, lhe disse: “Bárbara é o meu preferidol”. Ele sorriu e perguntou por que aquele conto era o que mais me agradara. Olhei para o céu, e ele, timidamente orgulhoso, falou: “Entendi”.
Bárbara fazia pedidos absurdos ao marido. O sujeito prontamente atendia a todos os desejos. Uma noite, ele a viu olhando o céu. Imaginou que lhe pediria a Lua, mas quis apenas uma estrela, e ele foi buscá-la. Assim termina um dos mais belos contos já lidos por mim, escrito pelo autor-personagem mais fascinante que conheci. É bom poder contar, 37 anos depois, as lembranças de uma das melhores noites da minha vida. A noite em que conheci Murilo Rubião, o criador da literatura fantástica da América Latina. Uma literatura que nos foi sonegada pela negligência da nossa insistente ignorância diante de tudo que ainda não conhecemos.
“Muitos se recusam a aceitar a realidade
simplesmente porque entrariam em
colapso se o fizessem.”
Johann Goethe

Fonte: Revista Almanaque Brasil, Ed. Nº 148. Agosto de 2011
Elifas Andreato