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sábado, 5 de fevereiro de 2011

O marido do Dr. Pompeu. Luís Fernando Veríssimo



Ninguém estranhou quando, depois de vinte e cinco anos
de casamento, filhos criados, a mulher do dr. Pompeu
pediu divórcio. As razões dela eram normais para a época:
não queria mais ser apenas uma dona-de-casa. Queria viver
sua própria vida, estudar psicologia, ter sua própria carreira.
 
Tudo bem. O escândalo, para mostrar como ainda existem
preconceitos, foi quando souberam que o dr. Pompeu, em
vez de outra mulher, arranjara um marido.
— Quem diria, bem? O Pompeu.
A própria mulher foi pedir satisfações.
— Pompeu, você enlouqueceu?
— Por quê?
— Todos estes anos, eu nunca desconfiei que você
fosse. . . desses.
— Desses o quê?
— Você sabe muito bem. Um...

A mulher se calou porque nesse exato momento chegou
em casa o marido do dr. Pompeu. Um homem apenas um
pouco mais velho do que ele, grisalho, ar respeitável. Um
empresário de muito conceito.

— Alô... — disse o marido do dr. Pompeu, um pouco
constrangido.
— Oi! — disse o dr. Pompeu, alegremente.
— Boa tarde — disse a mulher, seca.

O marido do dr. Pompeu foi tomar seu banho, ouvindo
a promessa do dr. Pompeu que o jantar estaria na
mesa num instantinho. Quando a mulher ia recomeçar a
falar, o dr. Pompeu a deteve com um gesto.

— Não é nada do que você está pensando — disse.
— Que eu estou pensando, não, Pompeu. Que todo
mundo está pensando.
— Nós temos um acordo. Eu cuido da casa para ele,
supervisiono o trabalho das empregadas, faço as compras,
faço tudo para que ele tenha uma vida doméstica organizada e feliz.

Em troca, ele me sustenta. Não temos nenhum contato sexual
porque nenhum de nós é, como você disse com tanta eloqüência, desses.
 
— Mas Pompeu...
— Eu não tenho do que me queixar. Meu padrão de vida melhorou.
Ele me dá dinheiro para tudo que eu preciso. Inclusive, aliás,
para pagar a sua pensão. E hoje eu posso fazer o que
sempre sonhei. Não trabalho, não me preocupo com as contas,
com a segurança da família, com todas essas coisas de homem.
E o melhor: quando tenho que descrever minha profissão,
posso botar “do lar”.
— Mas Pompeu!
— E agora me lá licença que preciso tratar do nosso jantar.
Depois do jantar ele vê o Jornal Nacional e eu fico
esperando a hora da minha novela. Passe bem.



quarta-feira, 1 de setembro de 2010

UM "BRAZILIAN WAY OF LIFE"?


Por Marcelo Cajueiro. (Revista Set)

Revivo o debate sobre o financiamento público para o cinema brasileiro. Lembro do orgulho e do prazer de ver grandes filmes...na minha língua.

Eu e Jiang Guopeng, correspondente internacional da Xinhua, agência de notícias do governo da China, trafegávamos pelas ruas de Port of Spain, capital de Trinidad e Tobago. Depois de um dia exaustivo de cobertura da Conferência das Américas, dividíamos um táxi até o hotel.

Sobre o que conversar? Jiang tinha uma referência cultural brasileira. “Eu baixei na internet aquele filme da polícia do Rio”, disse. Era Tropa de Elite. “Já havia assistido àquele outro”, acrescentou. Cidade de Deus.

Pela temática dos filmes, inferi que Jiang tinha uma percepção ruim do Brasil. Estava errado. Tropa e CDD, mais as referências usuais — Pelé e Seleção brasileira, samba e carnaval, praia e corpos seminus — despertaram no jovem jornalista chinês um inequívoco fascínio por aquela sociedade tropical e latina. E então passei os próximos 10 minutos de viagem tentando saciar a curiosidade de Jiang sobre o modo de vida no nosso país.

Este inusitado papo caribenho me veio à cabeça alguns dias depois, quando entrevistei Manoel Rangel, presidente da Ancine (Agência Nacional do Cinema). Manoel detalhou o investimento que será feito, a partir deste ano, através do Fundo Setorial, novo mecanismo de incentivo à produção de longas no país. Estamos falando de R$ 60 milhões em 2009, divididos através de editais para produção (R$ 30 milhões), distribuição (R$ 20 milhões) e comercialização (R$ 10 milhões). Nos próximos anos, afirma Manoel, o investimento do Fundo Setorial será ainda maior, chegando a uma média anual de R$ 100 milhões  (o grosso destinado a longas).

Ainda que o Fundo  Setorial tenha uma lógica de retorno do investimento, é correto classificá-lo como um mecanismo de incentivo. Assim, devemos somá-lo aos outros incentivos à produção cinematográfica. Em 2008, os valores arrecadados através dos artigos 1° A (que substituiu a Lei Rouanet no tocante aos longas), 1° e 3° da Lei do Audiovisual, Funcines, restos a pagar da Lei Rouanet e prêmios adicionais de renda e de qualidade totalizaram mais de R$ 147 milhões.

Estes investimentos via incentivos tradicionais devem cair um pouco este ano, com a desaceleração da economia e a diminuição dos lucros da empresas. Mas a entrada do Fundo Setorial vai provavelmente compensar esta perda, talvez com sobras. E nos próximos anos, com a esperada retomada do crescimento e o Fundo em plena atividade, a grana para a produção de longas deve crescei ainda mais.

Revivi, na minha cabeça, o velho debate sobre o subsídio à indústria cinematográfica brasileira. Não seria melhor investir estes 150, 200 paus na educação ou saúde pública? Lembrei das várias reportagens da Veja. Quantas casas populares dão para construir com esta boiada? Lembrei-me dos diretores e produtores que superfaturam orçamentos e se remuneram na produção. Do descaso destas pessoas com o público e da arrogância do “eu-sou-um-artista- gênio-e-faço-o-que-quero”.

Mas então recordei o orgulho da Palma e do Urso de Ouro de Central do Brasil e Tropa de Elite. Do prazer de assistir a Cidade de Deus, Eu, Tu, Eles, Bicho de Sete Cabeças, Edifício Master, Estômago... na minha língua. Lembrei também que o soft money (apelido da grana dos incentivos) é uma realidade na maioria dos países. Dos milhares de empregos qualificados no setor cinematográfico. Do famigerado Collor fechando a Embrafilme e reduzindo o setor a pó.

Finalmente, lembrei da conversa com Jiang Guopeng, do fascínio do asiático pelo Brazilian way of life, despertado pelo contato com nosso cinema. E, lá do fundo, emergiu a memória de uma aula na escola de um professor marxista, na qual ele afirmava que os norte-americanos aceitam negociar qualquer questão econômica, menos a restrição à distribuição de seus filmes. (grifei)


Marcelo Cajueiro é correspondente da Revista Variety no Brasil e membro da ACIE (Associação dos Correspondentes da Imprensa Estrangeira no Brasil). 

Artigo publicado na Revista SET, de Junho de 2009, p.46. Valeu!

domingo, 20 de junho de 2010

Como se tudo fosse uma série, algumas reticências.

São Miguel do Oeste tem uma característica singular: é longe, muito longe. Não longe do mundo, ou de tudo, ou de quase nada, mas longe naquilo que a própria palavra tem como reticência. Como espaço a ser ocupado, lugar pronto para cumprir um sentido afetivo de ocupa-se. Lugar branco, sem associação de escritores ou de artistas (esta maledicência), o que é ótimo, bem perto da fronteira com o estranho, muito perto de suas ruas com relevo e de uma gente que na falta de outro movimento fica na rua, habita a rua, se espalha na rua. Morar a rua aparece como uma opção à vida pequena, miúda, da cidade com pouca gente e que faz frio, muito frio.

Assim, o princípio de um programa de formação de escritores numa cidade como São Miguel do Oeste acessa um vão aberto que pode ser esticado até onde o limite do risco e do esforço se faz possível. Não há nada antes, tudo pode vir depois. E isto é a melhor coisa pra um trabalho como esse. Porque todo o projeto é novo, bom, ventilado, tudo fica mais generoso e denso, as coisas podem ser ditas, as coisas podem ser ouvidas. Toda a ideia é abrir a palavra até onde ela é rasgo e tensão dentro da página.

Este pequeno livro é uma mostra dessa reticência, dessa ventilação, desse outro possível que ninguém sabe ninguém viu. Mas até agora. Este livro é para dar a ver este sumiço, este fantasma, esta série plena de coisas que poderiam ou deveriam ter sido ditas antes, muito antes. Mas como não foram, é agora que elas aparecem e se confirmam: o tempo de cada coisa aqui é agora, nesta série, neste ir e vir de cada movimento. Caríssimo leitor: siga o mapa, se perca por aí; garanto a você: vale o escrito. 

Manoel Ricardo de Lima - Outono, 2009.

A Coleção Caderno de Autoria reúne experiências de escrita elaboradas nos cursos de formação de escritores do SESC Santa Catarina. Esta coleção surge em consonância com o cenário cultural brasileiro e com as diretrizes do Departamento Nacional do SESC enquanto estímulo à produção, difusão dos bens culturais e incentivo a novos artistas.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Espelho. José J. Veiga


Quando uma casa desmorona por velhice mais abandono, parece que alguma coisa da essência das pessoas que viveram nela e foram felizes — pelo menos por algum tempo ou alternadamente, já que ninguém é feliz sempre — fica pairando sobre os escombros e sobre utensílios abandonados ou esquecidos pela última família que morou nela; tanto que o poeta Pessoa escreveu num poema: "O que eu sou hoje é terem vendido a casa \ e terem morrido todos \ Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez...”. Aquela casa deve ter sido vendida várias vezes, depois envelheceu e por fim caiu.

O entulho ficou lá enfeando a rua e servindo de abrigo a mendigos e outros desses que têm a mania de pensar que são rebeldes, contestadores, não querem trato com o que chamam de sistema, mas não levam esse pensamento às últimas conseqüências: não abrem mão de um bom churrasco de gato nem do ato mais visceral de descarregar seus detritos quando se sentem pesados por dentro. Em todo caso, uma vez aliviados lembram-se de que fizeram uma concessão aos costumes e pensam que se redimem deixando de se limpar. Cada qual com a sua filosofia, como disse o general de granadeiros Contumácio Coribantes, vencedor da Batalha de Filigranas, que, como se sabe, mudou o rumo da história dos países do lado de baixo do Equador.

Então o entulho do desabamento ficou lá poluindo a rua e atraindo moscas, lagartixas, ratos, baratas e outros entes obnóxios, até que saqueadores tomaram conhecimento e começaram seu trabalho sistemático de extrair e carregar tudo em que vissem algum valor. Durante dias, talvez semanas, caminhões, kombis e até burros-sem-rabo, que ainda existem para quem sabe onde achá-los, transportaram ladrilhos, azulejos, grades, pias, torneiras, painéis de vidraças milagrosamente inteiros, portas, portais, caixilhos e esquadrias de janelas, fechaduras antigas ainda perfeitas, algumas sem as chaves; dois ou três armários enormes de madeira maciça para guardar louça ou roupa de cama e mesa e que os últimos moradores não quiseram carregar, certamente devido ao tamanho e ao peso. Esses foram desmontados a duras penas e transportados em um caminhão novo com placa de Vassouras, RJ, que alguém anotou por curiosidade.

Havia também um guarda-roupa, esse não tão antigo nem de boa madeira, tanto que não resistiu ao esborôo da casa, ficou todo quebrado e desconjuntado e não interessou a nenhum dos primeiros predadores. Mas quando chegou o segundo escalão, o chamado pente-fino, formado pelos que se contentam com sobras e rebotalhos, alguém deu uma olhada no guarda-roupa arrebentado, talvez esperando ou desejando que em alguma das muitas gavetas, quem sabe, tivesse ficado algum objeto de valor, ou mesmo dinheiro, é impressionante que existe de gente distraída no mundo, e muitas vezes o prejuízo de um distraído acaba sendo o lucro de um porfioso.

Dada a vista nas gavetas, quase todas ocadas por cupins, e nada encontrando, a pessoa notou que uma porta estava inteira e sã e poderia ser aproveitada, há sempre colocação para uma boa peça de madeira já curtida pelo tempo e vacinada contra cupins, podia servir para tampo de mesa, para um banco, para prateleiras de estante, era só esperar o encontro dela com quem a estivesse procurando, se esses encontros nunca acontecessem não haveria necessidade de belchiores, que sempre existiram e sempre existirão.

Depois de muito esforço, solavancos e engenho porque o puxador, também de madeira, estava quebrado e não dava pega, o pente-fino conseguiu abrir a porta — e teve nova surpresa. Do lado de dentro havia um espelho biselado de metro e meio de altura por sessenta e cinco centímetros de largura em perfeitíssimo estado, só que por cima da grossa camada de poeira podia se escrever nele com um dedo uma frase completa, como "Todo governo é delinqüente".

Razoável conhecedor de coisas antigas, o vasculhador de ruínas imaginou ou percebeu que o espelho tinha sido reaproveitado naquele armário: a moldura era diferente da madeira da porta, indicando que o espelho devia ter estado numa parede, talvez num salão, acima de um bufê ou de um sofá; ou num quarto de vestir, ou em uma loja de roupa ou calçado. E era importado, provavelmente da França, cujos artesãos inventaram esse tipo de corte chanfrado para evitar arestas nas margens de placas de vidro ou de madeira.

Mas — e o aço? Estaria ainda bom depois de tanta vivência e de tantos sacolejos?

Como saber, com tanta poeira encrostada em cima? Olhou em volta, viu umas folhas de jornal jogadas nas ruínas pelo vento. Pegou duas folhas, fez uma pelota, experimentou. A seco não adiantava, apenas espalhava a poeira. Só molhando o papel, mas onde achar água? O homem tinha expediente, não ia empacar por tão pouco. Procurou um lugar protegido da vista de quem passava na rua e urinou na pelota de jornal. Com o papel molhado limpou duas pequenas áreas do espelho e por elas deduziu que o aço devia estar bom de ponta a ponta.

Satisfeito com o achado, nosso homem tornou a fechar a porta do armário, esperando encontrá-lo intato quando voltasse com uma kombi de aluguel para levar o espelho; se ninguém o vira antes, certamente ninguém ia vê-lo naquele dia. Mas antes era preciso agradecer ao santo fumando um bom charuto ali mesmo, com calma; para que pressa, se o dia estava ganho? Depois de limpado e exposto no belchior, o espelho não demoraria a encontrar comprador.

Não errou na previsão. Logo no primeiro dia um decorador se interessou, indagou o preço. Achou caro, fez uma contraproposta. Experiente, o belchior não quis vender ao primeiro interessado, mas anotou nome e telefone. Horas depois entrou um casal jovem procurando uma mesa de jantar extensível. Não gostaram das únicas duas que havia, ambas precisando de conserto, o que encareceria o preço final. Quando saíam, viram o espelho. Ouviram o preço, confabularam em voz baixa, compraram sem regatear.

Depois de muito debate e experimentação concluíram juntos que o espelho ficaria bem na sala de visitas, instalado horizontalmente atrás do sofá de três lugares. Oposto a ele, separando a sala de visitas da de jantar, ficava uma marquesa de jacarandá trabalhado, também comprada em belchior e restaurada por empalhador recomendado pelo próprio vendedor De cada lado do sofá havia uma poltrona Luís XV estofada de veludo caramelo pelo artista Mário Cotas, mas para isso tiveram de esperar seis meses, a lista de encomendas das dele era enorme. Valeu a espera. A sala ficou coisa de revista, diziam os amigos.

E o casal ficou feliz com a sala. Quando saíam para algum compromisso social sentiam-se como exilados, e arranjavam pretextos para se retirarem mais cedo e voltarem depressa para a sala acolhedora. Logo perceberam que a alma do ambiente era o espelho, tudo mais eram acessórios que sozinhos não encheriam os olhos de ninguém. Sem o espelho ficaria uma sala plebéia, com móveis de sentar, tapetes, alguns quadros indiferentes, requififes vários — igual a um sem-número de outras.

Por causa do espelho, e parece que sem perceber, o casal ficou passando a maior parte do tempo na sala, e às vezes até dormiam nela, um no sofá, outro na marquesa. Por que faziam isso? Se perguntados, possivelmente não saberiam o que responder. Sentiam-se felizes na sala, seria a resposta singela. Mas não precisavam dar essa explicação a ninguém, primeiro porque eram sozinhos e a senhora que cuidava da casa e da cozinha dormia fora; segundo, porque achavam aquilo natural, e o que é natural carece de explicação. Quanto mais olhavam para o espelho e viam a sala e eles mesmos refletidos no vidro impecável mas quase etéreo, mais gostavam dele; e já estavam achando que o encontro deles com o espelho, ou o contrário — o que talvez não fosse a mesma coisa, pensando bem — podia ser alguma arrumação do destino; e se consideravam escolhidos. Imagine se o espelho tivesse ido para um novo-rico qualquer, um capadócio, um bicheiro, um fala-gritado?

Mas, como disse um cantador, a felicidade é um trono de nuvem, quem se senta nele deve estar prevenido porque se desmancha à-toa, basta um ventinho, uma palavra impensada.

Foi o que aconteceu, ao que parece, porque quando voltaram o filme e o repassaram para ver se entendiam, ficaram achando que a mudança começara numa tarde esplêndida de domingo, o sol iluminando a varanda da frente, crianças brincando, gritando e rindo embaixo na praça, o casal na sala gozando a companhia do espelho. De repente a mulher, serena, alegre, reflexiva, deitada na marquesa, olhando pela porta da varanda e torcendo um chumaço de cabelo com o polegar e o indicador da mão direita, disse em voz calma, mais como se fosse um pensamento que tivesse lhe escapado pela boca:

— Não acha que estamos parecendo dois bobocas atrelados a este espelho?

O homem, sempre atencioso, deitado no sofá, os pés descalços sobre uma almofada, os joelhos dobrados, lendo o segundo volume do Corpo de Baile de Guimarães Rosa, pousou-o aberto sobre o peito e olhou intrigado para a mulher.

— Como é mesmo, filha?

— Eu disse alguma coisa? — indagou a mulher, olhando-o intrigada.

— Disse que estamos parecendo dois bobocas atrelados a este espelho. Aliás, não disse; perguntou se eu não achava.

— Foi, é? Ora essa! — Voltou a torcer a mecha de cabelo por um instante, calada. — Bem, se eu disse, então é porque estava pensando.

Ele pegou novamente o livro, mudou de idéia antes de localizar o ponto onde havia parado. Pousou-o de novo no peito. A observação da mulher ficou interessando mais.

— Esse pensamento é novo ou já lhe ocorreu antes? — perguntou.

Como não tinham segredos um para o outro, ela admitiu que dias antes no trabalho, ao ouvir uma colega falar do fim de. de semana altamente relaxante que passara com o marido e amigos em um hotel-fazenda no Vale do Paraíba, fizera uma comparação e ficara em dúvida se eles dois estariam certos fechando-se tanto em casa e em si mesmos por causa do espelho, como se o mundo lá fora não existisse; e se indagara se isso não acabaria prejudicando-os de alguma maneira.

— Bem, já que o assunto pulou a cerca, é porque chegou a hora. Então não vamos continuar fazendo de conta que ele não existe. Eu também tenho me preocupado com o espelho de uns dias para cá.

— É mesmo? Como assim? — disse ela, ao mesmo tempo em que passava da posição de semideitada para a de semi-sentada.

Um dia, quando você estava na cozinha fazendo café e eu aqui conversando com Emer e Zenaide, os dois sentados no sofá, olhei para eles para dizer qualquer coisa, tive uma sensação esquisita. Emer me perguntara sobre meninos de rua, a matança da Candelária. Quando dei minha opinião, aconteceu. Os que estavam no sofá eram Emer e Zenaide. Os que eu via no espelho, só do ombro para cima, eram outros. Esses aprovavam a matança. Não diziam isso em palavras, as palavras deles eram as de Emer e Zenaide, diziam que tinha sido um horror, uma vergonha, uma desumanidade; mas tudo soava falso. A opinião verdadeira estava nas imagens refletidas. Fiquei horrorizado. Disfarcei, levantei, fui à varanda pretextando ter ouvido qualquer coisa lá fora. Felizmente você apareceu logo com o café.

— Me lembro que quando entrei com a bandeja você vinha da varanda. Só isso.

— Então eles também não devem ter notado. Ainda bem. Mas fiquei transtornado. Naquele instante o espelho mostrou-me a verdadeira alma deles.

Ela olhou demoradamente para o espelho e disse: — Gostaria muito de pensar... pensar não, ter certeza ... que você tivesse imaginado isso.

— Eu também. Mas não dá para fraudar Foi real.

Não falaram mais no assunto, mas pensaram muito, cada um por si. De tardinha fizeram um lanche na sala de jantar, esforçando-se os dois para não falarem no espelho nem olharem para ele. Depois ligaram a televisão, nada de interessante. Que tal um cinema à noite? Consultaram o jornal, optaram por uma comédia inglesa, "O Garçom Venturoso", de Peter Ustinov. Os ingleses são bons em comédia, e Ustinov melhor ainda, lembra-se de "Vice-Versa"?

O filme é a história de um garçom de Charlotte Street que encontra a seu lado num banco do metrô uma bolsinha minúscula. Guarda-a no bolso para ver depois se contém algum valor. Quando a abre em casa, vê que tem um diamante do tamanho de ovo de codorna, com nota de venda de uma loja de Amsterdã. O preço, uma fortuna. O filme todo é o desespero do garçom para encontrar um lugar seguro onde esconder o diamante até poder dispor dele sem risco. Não tem experiência em atividades clandestinas e não pode consultar ninguém para não levantar suspeita. Não pode dividir o problema com a mulher porque ela tem coceira na língua. Todo esconderijo que imagina logo lhe parece escancarado. Levanta-se no meio da noite para mudar o diamante de lugar. Pensa engoli-lo para recuperá-lo no dia seguinte, e assim ir fazendo dia após dia, mas na primeira se tentativa quase morre engasgado, o raio do diamante bem podia ser um pouco menor.

O homem vive sonolento, cochila no trabalho, o chefe o adverte. Finalmente o pobre garçom conclui que não existe em toda Londres um lugar seguro para quem não tem diamantes esconder um diamante do tamaninho de um ovo de codorna. E resolve entregá-lo à polícia.

Em vez de distraí-los, o filme agravou as preocupações inconfessáveis do casal. Na mesma noite retiraram o espelho da parede, o que não foi difícil: bastou retirar com torques as três escápulas do alto, içar o espelho das três escápulas que o sustentavam embaixo, depois virá-lo de frente para a parede e pousá-lo no chão atrás do sofá.

No dia seguinte telefonaram para o belchior e fecharam negócio pela primeira proposta, como tinham feito quando da compra. Mas continuaram usando espelhos, ele para fazer a barba, ela para se pintar e pentear.

José J.
Veiga — José Jacintho Pereira Veiga (1915-1999) era goiano de Corumbá de Goiás, uma pequena vila a 150 quilômetros de Goiânia, e dizia dever a escolha de seu nome literário à ajuda de Guimarães Rosa que, com argumentos numerológicos e estilísticos, sugeriu José J. Veiga, na altura da publicação do livro de estréia "Os Cavalinhos de Platiplanto", em 1959. Seu romance "A Hora dos Ruminantes" foi publicado em 1966. Livros do autor: "Sombras de Reis Barbudos", "A Estranha Máquina Extraviada", "Objetos Turbulentos", "De Jogos e Festas", "A Usina Atrás do Morro", "Aquele Mundo de Vasabarros" e "Os Pecados da Tribo", "Torvelinho dia e noite", "Diálogos de relativa grandeza", entre outros. Traduziu diversas obras de autores estrangeiros.

Teve seus livros lançados nos Estados Unidos, Inglaterra, México, Espanha, Dinamarca, Suécia, Noruega e Portugal. Ganhou a versão 1997 do Prêmio Machado de Assis, outorgado pela Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra. Morreu no Rio de Janeiro, onde viveu por 49 anos.


quarta-feira, 26 de maio de 2010

Efeito colateral. Aline Gallina












(Atitude, troco e pílulas
eu digo que não tem nada a ver
faz o dinheiro sumir
e a pobreza perder)
Hoje logo após o jornal eu perdi meus pulsos.
Mesmo assim eu consegui mover-me e pegar o controle.
Desligar a TV ajudou a recuperá-los,
mas quebrei meus óculos ao virar o rosto
para o lado errado. 

Fonte:

domingo, 16 de maio de 2010

Frau Schreiber. Otávio Augusto Martinez


"Foi uma paixão aterradora...

Começou na minha infância, na verdade...

Eu a vi de longe... Estávamos no Teatro Municipal de São Paulo; ela dobrava-se amorosamente nos braços de um senhor, e a ele murmurava doces lamentos; ele, por sua vez, com os olhos cerrados, concordava ardorosamente com suas palavras lentamente movimentando a cabeça. Não sei como eu conseguia ouvir seu murmúrio em meio a tanto barulho, mas eu a ouvia perfeitamente! E ao ouvir sua voz aveludada, meu coração se rendeu àquela senhora de estranho porte.

Passado algum tempo, eu, um garoto de apenas 11 anos, fui em busca dela, mas não a encontrava. Porém, um belo dia, estando no mesmo teatro onde a vira pela primeira vez, encontrei o homem que era seu amante, e logo perguntei quem era a bela dama que fazia companhia a ele naquela noite de ópera. Ele respondeu sorridente: - "Ela é minha esposa, Frau Schreiber. Você gostou dela?" Eu fiquei enrubescido, relutei em responder, mas em minha inocência, respondi que sim!

Aquele senhor que tinha um narizinho com a ponta vermelha, ostentava na face uns óculos com grandes aros cintilantes, abraçou-me e sentou-se a meu lado, dizendo: - "Frau Schreiber é muito velha e muito grande para você, menino. Por que você não namora Miss Armstrong?" (apontando para ela, que estava tranqüilamente sentada na cadeira a frente). Eu até que gostei de Miss Armstrong! Ela era delicada, jovial, tinha um corpo reluzente, uma silhueta frágil, sua voz era suave como o uivar dos ventos, como o canto dos pássaros... Mas também dava gritos estridentes quando ficava nervosa!

As minhas primeiras conversas com Miss Armstrong eram truncadas, era necessária muita sutileza no trato... Até que um dia eu descobri o ponto de equilíbrio para nossa relação... Aprendi a amá-la, a ponto de, ao estarmos juntos, parecermos um só corpo aos olhos dos que nos vislumbravam.

Entretanto, devo ser sincero, não esquecia Frau Schreiber...

Um dia, sem que Miss Armstrong soubesse, fui ter com o senhor do nariz de rena, e ansiei por ver Frau Schreiber. Ele, sempre sorridente e compassivo, chamou-a para junto de nós; sentamos em sua sala, comemos bolo de cenoura e tomamos chá de morango, enquanto conversávamos a respeito de meu romance pueril por aquela distinta senhora alemã. Ela não falava português, e nossa conversa fora intermediada pelo senhor do nariz de rena... Eles até que tentaram tirar da minha cabeça aquilo, mas não conseguiram.

Fui resoluto! Insisti em afirmar meu romance por Frau Schreiber... Até que ela teve uma brilhante idéia, que foi comunicada através de seu esposo: - "Frau Schreiber tem uma sobrinha que está vindo da Alemanha, você não gostaria de conhecê-la? Ela é idêntica a tia em todos os quesitos, porém mais nova". Eu me animei com aquela perspectiva e fiquei no aguardo da chegada da moça.

Logo contei toda verdade a Miss Armstrong, e para minha surpresa, a americaninha delicada consentiu humildemente com minha 'bigamia'."


quarta-feira, 7 de abril de 2010

Todo dia tenho vontade de desistir da literatura. Fabrício Carpinejar


Fabrício Carpinejar é poeta, jornalista e mestre em literatura pela UFRGS. Com mais de dez livros lançados entre poesias e crônicas, o escritor gaúcho já ganhou diversos prêmios por sua obra. Em entrevista à CONHECIMENTO PRÁTICO LITERATURA, Carpinejar conta sobre como lidar com a sombra de Bartleby, o significado de escrever e as dificuldades que ele e outros escritores enfrentam com as palavras.
CP LITERATURA - Talvez, a única pergunta que importa, e uma das mais difíceis de responder seja: o que te faz escrever?
Fabrício Carpinejar - Realmente, é a pergunta que mais atormenta. É uma urgência. O que me faz escrever é a incapacidade, a incompetência para fazer outra coisa. A literatura é um circo, essa possibilidade de completar as falhas, de ter uma honestidade e uma autocrítica muito mais contundente. Por que eu escrevo, então? Porque eu não consigo me enterrar o suficiente.
CP LITERATURA - E o inverso? O que te faz não escrever?
Fabrício Carpinejar - A sua vida quando está muito perfeita. A alegria é meio burra, por mais que eu tenha tentando alfabetizar a alegria, principalmente na poesia. Parece que você precisa ser trágico, fodido, ferrado, acabado, para escrever alguma coisa. Eu não escrevo na hora que a vida não precisa de mediação. O escritor precisa entender que, em alguns momentos, ele mais escreve quando não escreve. A literatura tem que ter um minuto de silêncio. Não adianta somente escrever para ocupar, você escreve para desocupar, para dar espaço. Também não pense que vai ser gênio, porque não conseguirá escrever nada que preste.
 CP LITERATURA - É como quem escreve buscando a eternidade através da literatura. Não?
Fabrício Carpinejar - Exatamente, que eternidade, tchê? Não tem como buscar a eternidade, a gente rão consegue buscar nem coisas muito mais elementares e prosaicas, imagina a eternidade. Esse fato de escrever para a eternidade é um pouco o sonho do suicida. Aquele sonho que é natural em todo mundo, de se imaginar morto, rodeado pelos amigos, todos chorando. A gente não tem que procurar a perfeição, a perfeição paralisa. A gente tem é que combater ao mesmo tempo a facilidade e a dificuldade. Por isso, a literatura é tão difícil. Ela é uma medida e nem todos admitem o possível, todos querem o ideal.
CP LITERATURA - Você certamente tem um lado muito crítico. Como lidar com isso?
Fabrício Carpinejar - Não existe escritor que não tenha vontade de desistir da literatura toda vez que acorda. Todo dia eu tenho essa vontade. É muita entrega, vulnerabilidade, é uma  paixão desmedida. A desconfiança é sadia, ela que vai trazer depois o prazer, o gozo, o regozijo.
CP LITERATURA - E como fazer para suportar essa vontade?
Fabrício Carpinejar - Tem que pensar que o lado crítico humaniza o escritor. Não pode ser niilista, mas a autocrítica vai levar ao humor, a uma irreverência crítica, à ironia. A gente precisa um pouco disso, dessa nitroglicerina do riso, que é admitir os defeitos. Não tem defeito que não possa virar virtude, mas precisa passar pelo vestíbulo do riso.
CP LITERATURA - Quando você mostra um texto, certamente vem uma expectativa do que a pessoa vai achar, seja leitor, parente ou crítico, como lidar com essa espera?
Fabrício Carpinejar - Nâo tenha pressa. É isso que falo. Não tenha pressa. Ninguém tem a obrigação de gostar do que eu fiz. Isso é um erro dos escritores. Eles publicam pensando num consenso. Não há consenso. Não há consenso nem dentro de mim, há muita discordância em mim. Quantas vezes eu li um livro, disse que não gostava e dez anos depois, eu estava em outro contexto, e o livro se abriu generosamente.
CP LITERATURA - Você já afirmou que a literatura não substitui a vida, mas qual a função dela? Para onde ela leva?
Fabrício Carpinejar - Eu não vejo a literatura como fracasso, a literatura não é para suplantar a vida, a literatura é para te ensinar a viver melhor. Ela intensifica a sua observação, você se torna até um pouco autista porque enxerga aquilo que está à sombra, você fica mais humilde. Escrevemos para suportar um dia não escrever mais. É uma preparação. Se você quer o paraíso, procure outra profissão.
(Fonte: Revista Conhecimento Prático – LITERATURA – nº 22, p. 32/33)

domingo, 28 de março de 2010

As cartas para si. Júlio Gavinho


Crítico gastronômico. Sozinho em sua casa. Sozinho nos restaurantes a que se obrigava a ir. Tão erma solidão que deu para escrever cartas. Escrevia e-mails para a revista da qual era colaborador. Impessoais. Frios como saladas ou vichyssoyse. Escreveu carta primeiro para si mesmo. Escreveu para si como se fosse uma terceira pessoa que conhecesse muito e soubesse da incompatibilidade entre a vida e a expectativa. Escrevia com fidalguia e iniciava sempre dizendo que chegou aos seus ouvidos que ele não andava bem. Coisa de amigo em comum. Se os tivesse. Preocupado, e sem conseguir falar com ele já que não possuía telefone, decidiu escrever. Até porque determinadas coisas são mais fáceis de escrever do que dizer. Falava da saudade como se fosse a que sentisse. E na verdade o era. Dizia sobre os males da solidão e de viver consigo mesmo. Procurava mostrar o fato de viver com uma companhia que o amaria incondicionalmente – ele próprio. Deveria aprender a cozinhar, pois isso já não seria viver só, mas acompanhado de si. Dizia dos prazeres da ditadura televisiva e da seleção de cardápios. Chegaria por concluir que ser sozinho é então um benefício e não o malefício que sempre achou. Terminava dizendo que esperava vê-lo em breve animado com as possibilidades que a vida oferecia, e que em nenhuma hipótese poderia se negar a ela. Saudações, assinado ele mesmo.

Passou então a escrever a esmo. Escolhia endereços a esmo, sempre residenciais, e enviava. Nunca houve resposta. Escrevia dizendo que sentiu uma súbita vontade de escrever para alguém e que, aleatoriamente, escolheu esta pessoa. Falava de si, das coisas de que gostava. Das viagens que fez na mocidade, dos trabalhos que já teve e do ofício de crítico gastronômico. Escreveu por meses a fio sem resposta.

Como em um destempero de melancolia escreveu uma carta triste e desesperançada que dizia que de nada valia pena, pois dela não havia eco em sinais de tinta. Escrevia pelo prazer de sintetizar sentimentos que às vezes sequer existiam. Nada valia o exercício de aproximar-se de desconhecidos, pois nunca o deixariam de ser. Nada valeria o esforço de descobrir o outro lado. As sensações de quem o lia. O desejo de conhecê-lo não existia, pois dele ninguém respondia. Sua tentativa de aproximar a solidão do fastio de companhia era então redundante fracasso. Deixaria, pois, de escrever e dedicar-se-ia exclusivamente ao trabalho. Neste sabia que existia eco. Deste, certeza tinha de que as linhas eram percorridas por ávidos olhos, imaginativos de suas impressões sobre crustáceos, aves e carnes exóticas. Linhas, abandonava-as naquele momento.

Dito e escrito, enviou triste e sofrida carta de despedida a todos os que havia escrito em tempos.

Não tardou e recebeu uma carta perfumada. Perfumada como são as missivas cinematográficas. Por tal influência, fez de automático o gesto de levá-la ao nariz e aspirar bem fundo tão sutil e, certamente, feminino perfume. Abriu a carta e delicado papel se fez entre os dedos.

Respirava o perfume e lia, bela caligrafia, linhas emocionadas sobre deixar a solidão e criar conluio com o desconhecido. Dizia que valia sim o exercício diário do desconhecido, pois, questionava, o que é afinal o novo dia que nasce senão o mais retumbante desconhecido. Qual seria então o sentido de descobrir o outro lado, o leitor, senão pelo prazer de saber das sensações que desperta. Ela sim desejava então o fastio da companhia daquele que desconhecia, somente pelo encanto da descoberta. Queria fazer dele o último pedaço de desconhecido desbravado por um homem. No caso dela, mulher. A mente. O corpo. A alegria de ser sabedora que ele existia por trás daquelas linhas que a cativaram pelo prazer de lê-lo e por conhecê-lo. Ofereceu-se ao sacrifício. Marcou data e lugar para o encontro.

Deu-lhe endereço. Mapa do esconderijo de chaves. Apartamento em Copacabana. Ele compra rosas. Vermelhas. Abertas. Lindas. Volta à floricultura e compra mais. Quase chegando, volta e compra mais rosas. Baixo,meia-idade, bem vestido e bem-sucedido. Peso equilibrado com altura. Óculos . Cabelos curtos. Sapatos mocassins italianos. Sem perfume. Sem cheiro. Chega uma hora antes. Um apartamento amplo. Vazio. Na rua, os táxis buzinam. Sinteco com desenhos geométricos. Descobre uma bela banheira. Enche. Começa a debulhar as rosas e a espalhar pétalas pelo chão. O dia cai. Espalha pétalas de rosas na água morna da banheira. Ela chega. Um pouco acima do peso. Menor que ele. Cabelos levemente loiros. Pouca maquilagem. Vestido floral discreto. Bem-sucedida. Abre um sorriso ao ver o chão coberto de pétalas. Na rua, os pedestres andam. Abraçam-se. Beijam-se como se fosse faltar o ar de um ou de outro. Acalmam-se. Beijam-se agora explorando as cavidades um do outro. Trocam gentilmente saliva e sorrisos. Ela carinhosamente lhe tira a blusa, e ele, ato contínuo, gentilmente lhe abre o sutiã por dentro do vestido. Ela gosta da sensação do tecido em contato com os mamilos, agora comprimidos contra o peito dele. Na rua, os ônibus aceleram. Ele a olha tão profundamente que lê suas linhas na retina dela. Vê seus escritos estampados nos sentimentos dela. Ela sente a excitação de menina que já não é mais. Despem-se de calças. Pudores. Calcinhas. Passado. Cuecas. Desconfianças. São agora íntimos, ambos com pétalas de rosas a cobrir-lhes o dorso. Rolam. Na rua, os mendigos rolam. Ela abre-se como uma rosa úmida e dele recolhe o beijo. Composto de saliva. Pétalas. Dentes. Rosto. Gosto. Bom gosto. Convidado a entrar, entra. E ali, recebido e bem-vindo, percebe que suas cartas foram respondidas. Percebe que o ritmo da vida é o vagar. Balanço compassado. Dúvida se deve ficar ou ir. Percebe o sentido de suas linhas na tinta de lágrimas que agora dela vertem, e nas linhas de vida doloridamente escritas em suas costas. Escrevem linhas e linhas de um futuro incerto e imprevisível. Cartas que ainda escreverão para si. Na rua o carteiro corre para entregar outras cartas.

(“As cartas para si”, transcrita do livro “Homem procura menina e outras estórias”, de Júlio Gavinho (1968), Editora Germinal, São Paulo, 2004)